O samba é seu dom.
Quem freqüenta a Lapa, no Rio de Janeiro, sabe que o samba está sempre acompanhando (ou sendo acompanhado) por Pedro Miranda.
O samba é seu dom.
Quem freqüenta a Lapa, no Rio de Janeiro, sabe que o samba está sempre acompanhando (ou sendo acompanhado) por Pedro Miranda.
Lá, ele aprendeu a "bater samba de quadra, enredo, de roda, na palma da mão" e mostrar todo o conhecimento adquirido, seja no Grupo Semente, junto com Teresa Cristina, seja no Cordão do Boitatá, que embala (cada vez mais) foliões saudosos das brincadeiras de rua durante o carnaval.
Inquieto, Pedro dá expediente em vários projetos. Foi assim com o CD Lamartiníadas, quando, junto com Alfredo Del Penho e Pedro Paulo Malta, recuperou pérolas carnavalescas de Lamartine Babo. Também participou, ao lado de Roberto Silva e Cristina Buarque, do CD O Samba É Minha Nobreza, idealizado por Hermínio Bello de Carvalho. Pedro ainda fundou, com Eduardo Galotti, o grupo Anjos da Lua, que até hoje lota o Clube dos Democráticos. Na Lapa, é claro.
Agora, finalmente, ele chega com seu primeiro disco solo, Coisa com Coisa e mostra seu dom, acompanhado por bambas conhecidos das noites cariocas e produzido por Paulão 7 Cordas (também produtor musical dos discos de Teresa e Semente). Fiel aos seus princípios, Pedro se mostra corajoso ao gravar um álbum para quem realmente gosta do samba tradicional, feito por alguém que se dedicou a pesquisá-lo. "Este repertório estava mais ou menos definido há dois anos. Quis fazer um apanhado de tudo o que venho tocando desde o começo. Por isso tem embolada, samba-choro, samba de terreiro, samba-sincopado e até valsa", ressalta.
Pedrinho Miranda, como é conhecido entre os amigos, aprendeu a "cantar samba com Mário Reis, Vassourinha, Ataulfo, Ismael e Jamelão". "(...) Nada de rock, rock/ nós queremos é samba", brada o delicioso "Nada de Rock Rock", de Heitor dos Prazeres. Pagode romântico? Procure outras praias. Pedro teve aulas do gênero "ouvindo Silas, Zinco, Aniceto, Anescar, Caxinê e Jaguarão". Por isso o amor aparece sim, mas de forma poética como na inédita e linda "Cumplicidade", parceria de Teresa Cristina e Marcelo Menezes. Teresa, aliás, faz participação especialíssima cantando na faixa "Dona Joaninha".
O samba é seu dom e pode ser carioca. De Candeia e Paulinho da Viola, "Amor Sem Preconceito", gravado como choro por Ademilde Fonseca e mostrado no disco como samba de terreiro; de Zé Ketti, "Coisa Com Coisa", inédita do considerado general da banda, apresentada a Pedro por Elton Medeiros durante um show de Teresa & Semente. O samba de Pedro Miranda também pode ser baiano, com a inédita "Chula Cortada", de Roque Ferreira, ou mesmo uma marchinha de carnaval de Alberto Ribeiro e Frazão, "Vírgula", recuperada nos shows do Cordão do Boitatá, gravada no disco com a participação afetiva do grupo.
Pedro ainda resgata no álbum "Caixa Econômica", samba de Nássara e Orestes Barbosa, este mais conhecido pelo sucesso "Chão de Estrelas". A embolada "O Sapo no Saco", de Jararaca, é outra que reaparece em pleno século 21 graças ao sambista. No repertório, nada óbvio, ainda aparecem um quase desconhecido Chico Buarque em "Doze Anos" (criada para a peça teatral "Ópera do Malandro", não por acaso gravada por Moreira da Silva), o mítico mangueirense Zé da Zilda (em parceria com Ary Monteiro na já citada "Dona Joaninha"), a dupla João de Barro e Alberto Ribeiro em "Ciúme Sem Razão" e os grandes Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro no confessional e magnífico "O Samba é meu Dom". Dom, também, de Pedro Miranda, é claro!
Por Julio Biar
Março de 2006.